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Não sou daqueles que acham que quebrando o termômetro se abaixa a febre. De modo algum. Também não advogo a tese médica, um tanto difundida, aliás, de que quanto menos informação for repassada ao doente, melhor ele se sentirá.
Todavia, a maturidade - essa tirana que nos tira umas coisas e nos dá outras - convenceu-me de que há maneiras e maneiras de se enunciar um fato. Digo isso porque o jovem em geral é impetuoso, fala tudo o que lhe vem à boca, embora se arrependa no instante consecutivo. Os mais velhos rodeiam, desconversam, dizem que o gato subiu no telhado (lembra dessa, não é?), dando um tempo, enfim, a quem recebe a notícia. Estou a falar, amigo leitor, da forma catastrofista, bombástica, com a qual se desandou a informar sobre a crise. Ouvindo alguns comentaristas, tem-se a impressão de que, primeiro, isso jamais aconteceu antes, o que não é verdade em absoluto; e, depois, que não há nenhuma saída a não ser a encontrada pelo célebre holandês John Law, um banqueiro da Idade Média levado à bancarrota pela boataria: o suicídio.
Estou, assim como você, acompanhando atentamente o colapso econômico por que passa o mundo. Os motivos já se tornaram sobejamente conhecidos: bolhas setoriais, frouxidão nos critérios de concessão de crédito, falta de auditorias adequadas nos balanços de entidades financeiras, relações incestuosas do público com o privado, ganância, e por aí afora. Recrudescimento, afinal, de práticas consagradas pela banca internacional como padrão. Um pouco mais do mesmo. Não vou aqui cometer a hipocrisia de dizer que é boa a crise, que é gostoso ver dinheiro virar pó e ter o crédito arrochado e projetos postergados.
Porém, como tudo tem um lado positivo, acho que estamos diante de uma excelente oportunidade para esse modo de produção, que privilegia o capital especulativo em detrimento do produtivo, e que atrai seguidores como se fora uma seita miraculosa, ser revisto. O que falta ao mundo, em minha opinião, é priorizar o investimento produtivo, o trabalho, a transformação da matéria-prima em produto acabado, com a necessária agregação de tecnologia e muito suor. Não acredito em dinheiro fácil. O recurso financeiro, próprio ou emprestado de acionistas, é o meio através do qual a verdadeira riqueza de uma nação é construída: seu patrimônio físico e humano. Não pode ser um fim em si mesmo, um organismo que se auto-reproduz.
Durante uma das últimas crises, na década de noventa, (uma prova de que esta pela qual passamos não é a única nem será a última), espantava-me o fato de algumas empresas do Vale do Silício americano, com meia dúzia de escritórios e duas centenas de funcionários, valerem, em Bolsa, o dobro de algumas gigantescas montadoras de automóveis, cujos patrimônios físicos estavam pautados em bens tangíveis. Convenha comigo, leitor, que é estranho o produto intelectual da Microsoft, seu único ativo, por mais impressionante que seja, valer mais do que os prédios, os estoque e o maquinário da General Motors.
Para reforçar meu ponto de vista, vou cometer uma inconfidência. De quando em vez, discuto com meus parceiros comerciais sobre o que fazer com algum excedente de caixa gerado pela nossa construtora - coisa rara, lamentavelmente. Diante do dilema que se instalava sempre que o paradigma era a evolução do IBOVESPA nos últimos anos, surgia a inevitável polêmica: comprar material de construção para aplicação futura ou aplicar o dinheiro, aguardar o ganho e comprar no momento da utilização? Em que pese a tentação ser quase irresistível, confesso, sem querer ser o “tal”, que, na maioria das vezes, votei por estocar o material, ainda que para aplicação meses depois. Desafortunadamente, os fatos provaram que eu estava correto: a Bolsa caiu e os preços dos insumos subiram, como numa perversa gangorra. Tudo mais ou menos previsível.
O que desejo mesmo dizer-lhe, fiel leitor, é que, não obstante a gravidade do momento, não obstante as ações que precisam ser implementadas pelos governos para que o mal não se alastre, não obstante a prudência nos gastos, eu acho que devemos ver o horizonte com menos espírito de catástrofe e um pouco mais de confiança na performance da economia brasileira, em especial. Mesmo porque o Brasil foi pego num instante em que dispõe de elevado nível de reservas e um considerável superávit primário, ambos indispensáveis para que as condições internas de temperatura e pressão sejam mantidas. Não estamos blindados contra nada; ninguém está. Mantenhamos a vigília, mas chega de catastrofismo! Estamos todos espertos e trabalhando!