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Pais e padrinhos

por Irenaldo Quintans


Dizem os gregos - cuja cultura tem como esteio a veneração dos antepassados - que, ao longo da vida, elegemos vários pais para nos servirem de modelo. Não pais biológicos, claro. Mas pais no sentido psíquico. Pelejamos por uma espécie de apadrinhamento permanente. Ou seja, além dos padrinhos que nos são impostos pelas convenções sócio-religiosas, há os que nomeamos voluntariamente, com ou sem consulta prévia, cujos procedimentos desejamos para nós. Se nos equivocamos ou não, é outra história. O fato é que, a partir dessas figuras parentais, compomos nosso “modus vivendi”.

Este modesto escrevinhador também teve seus segundos pais. Os primeiros, indicados segundo a convenção, como o de batismo e o de crisma. Daquele, que morreu cedo, a imagem desvaneceu-se no tempo, junto com os vapores da fria água consagrada. Já a deste último, um dedicado médico que fez da dignidade preceito inviolável, manteve-se forte e nítida. Assim, o vínculo foi estabelecido; e, no mínimo, eu aprendi como tratar os meus próprios afilhados.

Os demais, à moda grega, eu mesmo selecionei dentre a multidão que se nos apresenta cotidianamente, geralmente por área. Na escrita, Gonzaga Rodrigues é um deles; já o disse aqui. Mas é de outro que eu desejo falar hoje, na mesmíssima seara. Não que um Gonzaga não baste; é padrinho para mais de mil. Todavia, este é mais antigo. A bem da verdade, creio mesmo que ele jamais soube que, desde a adolescência, eu o havia distinguido como tal, vez que estabelecemos, por minha iniciativa e timidez, um apadrinhamento platônico – tipo de afeto cujo valor consolida-se no silêncio. Nunca tive oportunidade de comunicar-lhe, até porque não chegamos a ter a menor intimidade, na medida em que a intimidade dos gênios já não seja de domínio público. Um convívio social, talvez. Como cavalheiro, jamais deixava de cumprimentar alguém que tivesse cruzado seu caminho uma ou duas vezes, penso eu: acenava-me com atenção desproporcional à nossa relação. Ademais, léguas nos separavam. Ele citadino, eu sertanejo. Ele da década de quarenta, eu da de sessenta. Ele professor, eu neófito. Ele erudito, eu mosca de biblioteca. Ele astro feito, eu fã. Do caráter, só sei que era reto. Dos familiares e amigos, ouvi que o amavam. Dos inimigos, acho que não os cultivava.

Porém, estimado leitor, conquanto saiba tão pouco da sua vida, o que torna o ato de discorrer sobre ele um exercício dificílimo, é incalculável a influência que exerceu sobre minha escrita, num ponto do passado em que eu sequer cogitava aventurar-me ao público, como ouso fazer neste instante. Não no estilo – algo proustiano, inimitável. Tampouco no vocabulário machadiano - a um só tempo rico e cheio de chalaça. Antes, na doçura com que desbarata questões humanas de extrema complexidade. Uma delicadeza que, permeando invariavelmente suas crônicas, provoca carícias nos neurônios. Uma musicalidade oriunda da palavra bem trabalhada; mas, sobretudo, ressoada na concha da formação humanista, enriquecida, na exata dose, com vigorosos acordes de filosofia e psicanálise. Nos seus trabalhos, o centro de tudo é o ser humano: pequenezas, medos, frustrações, gozos, espasmos, depressões e tristezas. A exemplo de Thomas Mann, nada da humanidade lhe parece estranho e tudo se lhe afigura descritível. De episódios aparentemente comezinhos, desimportantes, sua verve aprisiona o fogo de Prometeu e alumia o caos que é a confusa experiência de viver como pessoa humana, santo dia após santo dia, a bordo desta casca de noz que chamamos Terra e que ele, aqui e acolá, chamava de Pensão da Paz Dourada.

Enfim, é precisamente esta candeia – a do Homem -, caríssimo leitor, que continuarei buscando nas minhas modestas incursões pelo caleidoscópio mágico da escrita, não importa quão árido seja o assunto, quão insípida seja a lógica, quão obscuras sejam as palavras. E esteja convicto de que, embora sem alcançá-lo, este aprendiz de cronista estará mirando sempre para o lume potente, sempiterno, da escorreita pena de Luiz Augusto da Franca Crispim.



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