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Palavras soltas

por Irenaldo Quintans




O presidente Lula anunciou recentemente um ambicioso programa de construção de residências de interesse social. Deseja - e convém frisar que ele crê piamente no potencial de realização do próprio desejo - a produção de um milhão de unidades até o fim do seu segundo mandato.

Não torço contra, de jeito nenhum. Mesmo porque sou grande interessado no deslanche do negócio; afinal, sou construtor juramentado, como diria Odorico. Demais, estou sentindo nas costas, assim como os meus colegas, as vergalhadas doloridas do recuo do crédito e da redução no nível de consumo das famílias: sinal eloqüente de que o drama norte-americano está chegando nos trópicos. Como bem disse um amigo: a lua-de-mel do brasileiro com a exuberância econômica durou pouco.

Contudo, devo ser sincero na exposição das minhas convicções para os meus dois ou três fiéis leitores. E não vem coisa boa: segundo o meu juízo, modesto juízo, o desiderato, além de redondamente inexeqüível, tem prazo de validade. É mais um programa inconsistente. Digo segundo o meu juízo, porque no de todos os membros do governo a sensação é rigorosamente contrária. (Lembra aquele louco da piada? Na contramão da via achando que só ele está certo). Confirmado, o programa seria altamente oportuno, além de um espetáculo para os oito milhões de grupos familiares sem habitação. Mas acho que, infelizmente, não decola.

Para respaldar minha insegurança, não vale o argumento que o presidente está em campanha eleitoral. Isso, por si só, não é problema. Estivesse Sua Excelência cabalando votos e o plano fosse o que a sociedade espera dele, tudo certo. Politicagem boa, essa de pedir votos fazendo as coisas acontecerem. Também estão corretos os subsídios concedidos diretamente as famílias, cujo aporte deixará a prestação compatível com o público-alvo preferencial, rendas de até três mínimos (escolha igualmente acertada).

Entretanto, minha ansiedade reside no fato de que o maior entrave - histórico, aliás, pois vem desde a desarticulação do BNH - ao fornecimento do produto habitacional não foi tocado. Refiro-me à questão da inexistência de um projeto habitacional de longo prazo. Não só que se sustente até onde a vista eleitoral alcança, episódico. Mas que sirva para, na pior hipótese, acompanhar o crescimento vegetativo da população brasileira, atualmente da ordem de um e meio a dois por cento ao ano. Uma política de Estado, responsável, perene, auto-custeada, com fontes de recursos garantidos e executores variados (não monopólio de uma instituição nem ação de um ministério isolado, como parece ser).

A razão do meu alerta é simples: o empresário, peça fundamental da engrenagem, não acredita mais em palavras soltas ao vento. E, portanto, poderá não aderir a algo que se desmanchará no ar depois de atingido certo objetivo, não obstante o principal não tenha sido. Qual? Deixo por sua conta, imaginativo leitor. Ah! Antes que me esqueça: nos últimos cinco anos foram produzidas apenas cento e vinte e cinco mil habitações populares.


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