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O alho insofismável

por Irenaldo Quintans



Houve uma época em que, para abastecer a casa, a gente costumava ir à feira livre. Alegremente, minh’alma fruía aquelas deliciosas madrugadas, encantada pelos múltiplos aromas, pelo vento fresco e pelo vaivém dos feirantes, mercadorias difíceis de ser encontradas nas gôndolas de um supermercado. E enquanto catava um tomate aqui e um pé de alface acolá, absorvia as idiossincrasias dos homens e mulheres que, felizes, praticam esse modo de comerciar avoengo.

Eis que, numa dessas manhãs, escutei: “Alho, alho, compre o único alho insofismável da feira! O alho sem sofismas!”. “Que maluquice é essa?”, pensei, enquanto varava a turba em direção à cantilena que partia de um garoto esquálido, de voz esganiçada.

Um tanto arrogante, sapequei: “Escuta garoto, você sabe o que é um sofisma?”. “E o senhor, sabe?”, retrucou, à maneira jesuíta. “Claro”, respondi confiante. “Sofisma é uma mentira”, completei, vencedor. “Nada disso”, disse ele, seguro. “Sofisma não é uma mentira propriamente; é, sim, uma conclusão falsa derivada de uma premissa verdadeira”, vaticinou, ao tempo em que, peripateticamente, circulava em torno de mim. E prosseguiu: “O que o senhor vai encontrar por aí parece alho, mas é apenas um simulacro de alho que não se desenvolveu; o meu não: é alho de verdade, veja o tamanho!” encerrou, alteando, orgulhoso, uma mancheia do admirável produto.

O rapazola – soube em seguida - estudara filosofia num curso noturno, pago com seu suor. Bonito, não? Entretanto, infelizmente muitos brasileiros não tiveram a oportunidade de conhecer esta que é uma das mais antigas e eficazes artimanhas do raciocínio, usada para justificar as mais estapafúrdias decisões e crimes hediondos história afora. E, portanto, sem consciência, deixam-se levar por argumentos cavilosos, construídos a partir de uma base verídica, como magistralmente ensinou nosso socrático feirante.

Semelhante episódio acontece justo agora, na discussão que trava o Congresso Nacional em torno do aumento da jornada de trabalho. A premissa sobre a qual a proposta está montada é válida: quanto menor a jornada, maior deve ser o número de trabalhadores para uma mesma tarefa. Contudo, a conclusão é visivelmente falaciosa: os empresários não aumentarão as contratações. Principalmente devido ao elevadíssimo custo do emprego formal neste país. Muito pelo contrário, a medida é um incentivo à informalidade.

Sugiro que os parlamentares e grupos que defendem a eficácia da redução da jornada como indutora do emprego tomem umas aulas com o vendedor de alho do mercado do Bairro dos Estados. Assim, aprenderão que estão contando às pessoas meias-verdades. Ou seriam meias-mentiras?


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