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Não conclua o solidário leitor que não gosto de carros. E gostar é pouco... Sou verdadeiramente “aficionado”, como falam os espanhóis. Na minha memória, incólumes ao tempo, mesclam-se barulhos e silhuetas de fuscas, vemaguetes, esplanadas, simcas, gordinis e (ah!) os sedutores karmann-guias bi-colores.
Paixão que nasceu quando comecei a pilotar com um tio, tipo irresponsável-encantador, desses que todo adolescente deveria ter na vida. Nas férias, entregava-me o volante de uma caminhonete meio sambada, pelas ressequidas veredas do Cariri, com um “toca aí” cheio de confiança, enquanto da janela do passageiro, empunhando uma espingarda de socar, perscrutava a caatinga em busca de uma codorniz desatenta. Eu, suando em bicas, com o coração aos pulos, aprendia comigo mesmo a levar à frente aquela máquina genial, que nos permitia sair da aldeia e correr o mundo.
E na púrpura do entardecer, sob a sombra fresca de um umbuzeiro, lambuzado de graxa, descobria segredos de carburadores, pistões, cilindros, câmaras de combustão, dínamos, velas... Tinha acesso, enfim, ao coração do animal que até bem pouco rugira sob o acelerador vacilante de aprendiz. Perdoe-me a gentil leitora que também ama carros, mas tais sentimentos simbolizam o que há de bom na condição masculina: controle e liberdade. Carro para o homem é isto: uma montaria sobre a qual se conquista o universo. As parelhas grassam na literatura, na mitologia: Rocinante e Quixote; Arion e Hércules; Bucéfalo e Alexandre; Pégaso (mito da imortalidade!) e Belerofonte.
Entretanto, tenho estado jururu. Decepcionado com o uso que se está dando a esse companheiro nos dias que correm. Perdi o enlevo de contemplar a passagem de um belo exemplar, em trote seguro, responsável. O que vejo são conduções temerárias, egoístas, desprovidas de qualquer compaixão. Pretende-se, esporeando sem piedade as centenas de cavalos-vapor de motores turbinados, pisotear tudo e todos. Alguns motoristas evocam mesmo o espectro de Átila – o huno que salgava a terra vandalizada. Duvida? Observe um horário de “rush” nas avenidas de uma capital qualquer.
E, assim, conquanto aconselhável do ponto de vista econômico, fico matutando se é pertinente essa história de estimular a aquisição de automóveis e motocicletas, por meio da redução de tributos, sem a correspondente ampliação das artérias. No Brasil, o resultado está à vista: um Vietnã por ano de mortos e mutilados no trânsito.
Adoro carros, redigo. Todavia, estou farto dessa guerra. Se continuar, ajo como a andorinha do incêndio: vendo o meu e passo a usar o transporte público. Será que minha porção pequeno-burguesa permitirá?