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De pães, circos e milagres

por Irenaldo Quintans



Só eu sei dos apuros pelos quais passei por causa das minhas pernas de pau. Jamais acertei um passe sequer sofrível. Não fosse este incapaz o dono da bola, literalmente, não teria sido aceito no campinho de terra do bairro nem como gandula.

E para que o estimado leitor - louco por futebol, óbvio - tenha uma vaga idéia do meu “status” na pelada, informo: na partilha, o craque tinha que ser escalado na minha equipe, a fim de balancear o confronto; do contrário, a goleada era certa. Pois eu não apenas embaralhava as pernas no instante em que a redonda me alcançava, como bloqueava o arranque do parceiro rumo ao gol. Uma árvore no meio dos jogadores. Depois de cada fracasso, envergonhado, voltava-me para o sabugo de milho falante de Lobato, cuja esquisitice tinha o condão de me acalmar. No fim das contas, vegetais se entendem.

Certa feita, por alguma razão alheia à própria razão, arrancado de uma aula em que o indizível Luizito discorria sobre as presepadas de Pascal, fui imerso no ruge-ruge do quintal do Colégio Pio XII, cujo time disputava com o arquiinimigo Lins de Vasconcelos o campeonato do adro franciscano. “Do pescoço para baixo é canela!” berrou-me alguém desconhecido, ao tempo em que me pregava, com os cravos da Paixão, na entrada da área. Em vez da chacina iminente, chamou-me a atenção o contorno do convento, jóia do barroco, dali vista por um ângulo singular. Alumiado pelo sol fragmentário, o frontispício evocava um circunspecto religioso, encimado pela aura beatífica dos seus votos. Fechei os olhos, simulei uma genuflexão e roguei um fim para aquilo tudo.

No momento seguinte, a temida gorducha, rolando placidamente, parou entre os meus apavorados pés. “Chuta, chuta logo!” escutei, ao longe, como num pesadelo. De moto próprio, devo revelar, a perna direita adiantou-se e... (pasmem!) a pelota corcoveou e entrou na cobiçada “toca da coruja” adversária - aquele ângulo reto impossível de ser alcançado mesmo por um Marzukiewicz. Carregado nos braços da multidão ululante, já que responsável pela apertada vitória do Diocesano, desfrutei por alguns meses de uma fama mentirosa, cujas benesses estragaram-me, como a muitos dos meus iguais, a exemplo de Mané Garrincha (é mole?).

Decerto vitimado pelo castigo do monge milagreiro, hoje sou obrigado a assistir ao chatíssimo noticiário nacional sobre a performance de escretes tão ilustres quanto o Chapadinha do Maranhão e o Cotinguiba de Sergipe. Entrementes, esqueço das barbaridades que alguns praticam com o nosso suado dinheirinho. Ninguém merece o “panem et circenses” deste imenso Coliseu!


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