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Tempo de refletir

por Irenaldo Quintans



Junto com a minha gratidão pela sua companhia nestas mal traçadas linhas, desejo-lhe, fiel leitor, que, em meio às gostosas confraternizações típicas desta época, sobre um tempinho para você. Um tempinho sabático, digamos. Mas, nada de exageros. Sei que você tem na cabeça o sabático dos hebreus antigos: o último ano de cada período de sete ao longo do qual era interditado cultivar as terras e perseguir devedores. Não é a esse que me refiro.

Sejamos pragmáticos: oxalá você dispusesse de trezentos e sessenta e cinco dias, assim, à toa! Tampouco deve ter o censurável costume de fatiar inadimplentes, como o fazia Shylock, o agiota de Veneza. Você não é disso. Demais, citadino por excelência, decerto cultiva sentimentos, em vez do solo propriamente dito – conquanto sejam os primeiros não raro mais difíceis do que o segundo. Então, combinemos tal vacância como um momento no qual se olha para o interior de si, por sobre si e para além de si, no dizer de certo escritor. Um diálogo íntimo, tipo: “O que tem feito de bom ultimamente?”. “Sim, entendo... Mas tem olhado somente para o próprio umbigo?”. E por aí vai.

Na verdade, caríssimo, brincadeiras à parte, desejo mesmo é que todos, daqui ou dacolá, leitores ou não deste irrelevante espaço, tenham direito a semelhante pausa no réveillon. Uma folga, que seja. É sério: está nas Escrituras! Por exemplo, gozou-a o Pai, após seis dias de intensa labuta. E o Filho no terceiro, ao cabo de grande sofrimento. E como frutificaram ambas para a humanidade... Ocorre que tais paradas estão progressivamente escassas nessa sociedade sem paz. Ora, em sendo a escassez definidora dos preços, como se sabe, as interrupções, sobretudo as reflexivas, valem cada vez mais. No fim das contas, os pobres não as fazem porque não dispõem desta preciosa mercadoria: o tempo. Também não as praticam os ricos porque, afinal, “time is money”. Terminamos correndo como vendedores de shoppings no Natal (coitados!), frenéticos. Cada minuto “perdido” significa uma gota de vida se esvaindo. É a internet, é a TV, é o compromisso, é o trânsito... Para onde vamos? À busca do quê? Numa bela tarde, dessas em que as folhas flutuam ao vento, a gente percebe que o outono - o nosso outono - bateu à porta. Os cabelos pretos perderam dos brancos, as extremidades cederam à preguiça, e um tico de nada daqueles sonhos acalentados quando a vida era um oceano de possibilidades concretizou-se. Sem falar nos nossos que se foram prematuramente.

Mas, espere. Antes de largar essa lengalenga enfadonha, permita-me ser pragmático novamente. Numa coisa estamos de acordo: não dá para dispensar o champanhe do Ano Novo; contudo, entre um gole e outro, em obsequioso silêncio, simplesmente sentemo-nos à beira-mar e pensemos um pouco. Nada mais que isto: um tempinho – um tempinho nada perdido cujos reflexos poderão provocar ajustes importantes na nossa vida. E na de quem queremos bem.


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