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Na nossa primeira casa na capital, perdi a conta de quantas noites, em favor de hóspedes, molecote, fui desalojado da aconchegante cama de campanha, cuja lona, rente ao chão do quarto, reverberava o frescor do piso, e instalado a contragosto numa rede, colada à do irmão do meio, na sufocante sala de visitas. Aliás, tratava-se de uma invasão: a sala era território tombado, vez que o mano, àquela altura militar, fazia dela, à noite, sua “garçonnière”, com direito a gandolas, cuecas e coturnos espalhados, tudo respaldado pelas ruidosas divisas do general que incorporava quando voltava do quartel.
E antes que o indignado leitor cogite ser a malvadeza punição por uma traquinagem medonha, ou mesmo a habitual prepotência adulta em face da fragilidade infantil, explico melhor. Na verdade, tive o privilégio de ter sido criado num ambiente livre de qualquer tipo de agressão. O pai, doce como uma cocada, balançava a cabeça numa única direção: a de um sim tão mais carinhoso quanto menos permissivo, visto que o efeito muita vez era contrário - deixava-se de fazer o malfeito por falta de não. Ora, o infrator queria polêmica. Não havendo, prevalecia a consciência e a aquiescência virava negativa. A mãe... Ah! Esta merece um livro só dela. Sobre concessões, pedidos, puxões de orelhas, cocorotes, angústias e, por último, mas não menos importante, um imenso afeto, que nos preenchia (e preenche) a todos.
Neste ponto, o estimado leitor há de se perguntar: se não fora maldade nem corretivo, por que diabos pais sereníssimos desaninhavam o caçula com semelhante impiedade? E a resposta é educação. Sim, educação. Não educação familiar, mas a possibilidade de permitir que alguém, parente ou aderente, jovem ou maduro, querendo, tivesse acesso à candeia preciosa do conhecimento. Mormente quando, como o pai, se foi preterido. Pode-se culpar o avô? Penso que não. À época, com o sustento do clã extraído do chão pedregoso da herdade, eram precisos três arando, semeando, plantando, irrigando, colhendo, ordenhando, domando, ferrando e vacinando diuturnamente, para um tornar-se doutor. Assim ditava o código. O “kanum”, de Ismail Kadaré. O pai era o ás da trinca.
Afortunadamente, a frustração transformou esse homem num ilustrado de poucas letras, PhD sem jamais ter defendido uma tese. Obcecado pela instrução, desbastou o nobre caminho para inúmeros aparentados ostentarem, hoje, vistosos anéis de formatura, os quais, por sinal, ele insistia em ofertar. Eu, sem seu gênio, vivo às turras com o desejo de fazer o mesmo. E não necessito mais deixar minha cama. Todavia, egoísmo forte e vontade fraca têm mirrado meus esforços. Desculpa-me, pai.