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Não parece, dada a dinâmica da vida, mas já estou há mais de vinte anos envolvido com construção civil. E envolvido até a raiz dos poucos cabelos que me restam. Afinal, é um trabalho arrebatador. E apaixonante. Apaixonante quanto à massa generosa de empregos que oferece; na dignidade que concede a um pai que abriga seus filhos; na salubridade que impõe à ambiência; no que, enfim, fez e faz pelo homem, desde que este abandonou o nomadismo e decidiu assentar-se sob um teto.
Produtiva ao extremo, capaz de adaptar a face do planeta às necessidades humanas, a construção, como poucas atividades, espana o bolor acadêmico dos papéis, lavando-os com o detergente da prática. É aristotélica, no mais nobre sentido do termo, porquanto comunga “sophia” com “praxis” e germina “phronesis” – e sabedoria mais prática é igual a felicidade.
E é precisamente essa paixão, leitor amigo, que me faz lamentar profundamente quando um programa habitacional, não meramente mais um, porém o que resgata a política de Estado depois de uma eternidade de desleixo, ameaça naufragar em face da politiquice e da rigidez de determinadas regras. Refiro-me à excelente ação de governo, ora em curso, chamada mui carinhosa e adequadamente de “Minha Casa Minha Vida”.
Entre parêntesis: estou certo de que você já ouviu falar dela e não me aprofundarei, portanto, nos seus postulados. Deve ter lido que é eleitoreira, que visa tão-só à continuidade de um governo etc. Pode ser. Contudo, o que você pode não ter reparado é que, independentemente de quaisquer argumentos, havia décadas que as classes de menor renda não tinham como adquirir um imóvel. Por uma razão óbvia: faltavam os recursos para essas pessoas honrarem a prestação nos financiamentos convencionais. E, com isso, acumularam-se, sob os olhos complacentes do país, um Haiti de indigentes habitacionais.
Pois bem. Essa semente, que foi trazida do Chile pela Câmara Brasileira da Construção, plantada no seio do governo no início do segundo mandato do atual presidente e usa o condão do Tesouro Nacional – dinheiro de todos - para subsidiar as famílias mais pobres, empacou em dois pontos básicos: primeiro, e gravíssimo, nos valores insuficientes que foram definidos para a aquisição de terrenos, provimento das infraestruturas e produção das unidades, em especial no Nordeste; e segundo, na falta de definição sobre quem é o mantenedor do programa em nível local, se estado ou município, o que determina conflitos políticos de assustadora magnitude. Como se não bastasse, um dos principais protagonistas do processo, o construtor, não está sendo convidado a se manifestar: tem prevalecido a arrogância estatal do pegar ou largar.
Entendam-me bem: este não é o grito de um pessimista corporativo. Muito pelo contrário: como creria o Cândido de Voltaire, creio na inexorabilidade da curva ascendente que hoje é traçada pelo Brasil e pela Paraíba, pouco importa a vontade dos homens. Todavia, no curto prazo, ou nos acertamos por aqui ou, mesmo sem enchente, lá se vão rio abaixo, de novo, para regiões mais convergentes, recursos destinados às casas das nossas famílias.