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Avenida Epitácio Pessoa, fim de expediente no escritório. Saindo da “Sonata ao Luar” como quem emerge da água, levantei confusamente da cadeira, derrubando no chão os papéis que estavam sobre o birô. Porém a hipófise, herança réptil, elucidou-me rapidamente: aquilo era uma briga; e das feias. Vitupérios indecifráveis atravessavam as paredes. Arregacei as mangas e passei à ante-sala, já desviando os bofetes.
Mas qual: fora o vozerio, nenhum empurrão. Apenas dois amigos, com as mãos entrelaçadas, cumprimentando-se. Aqui o leitor pode concluir que este escriba, por excesso de trabalho, contraiu delírio auditivo (lembra de John Nash?). Contudo, alego em meu favor que os citados protagonistas, inebriados com a alegria do encontro, trocavam gracejos aos berros, numa zoada de lascar! Quer ver mais? Vamos além, nessa tarde alucinante.
Ainda sob o efeito nauseabundo da adrenalina, resolvi descer para tomar um café. Nem bem entrei no elevador e um sujeito atendeu ao celular: “Alô?... Alô?... Não consigo te escutar. Olha, preciso conversar contigo, estás ouvindo?” E tome grito, tome grito naquele espaço minúsculo. Tudo em vão: qualquer criança sabe que o sinal falha em elevadores. Mas o cidadão queria mesmo era conciliar, na goela, a bronca conjugal que o afligia. Se a interlocutora o decodificava ou não, era de somenos.
Corri dali, os pulmões clamando por uma brisa. No rosto, recebi o bafo estridente das buzinas que, no semáforo congestionado da esquina, vomitavam milhares de decibéis. Tonto, recuei para o passeio, onde um carrinho informal da indústria fonográfica agrediu-me com o tal do “rebolation”, um batuque rústico e repetitivo, acompanhamento perfeito para um púcaro do santo daime, beberagem estupefativa da qual infelizmente eu não dispunha de uma gota sequer.
Encaminhei-me, desolado e sem rumo, para as ruelas de trás, a fim de, quiçá andando, aplacar aquela opressão peitoral. Adivinhou com o que deparei logo adiante? Não? Digo: um trio elétrico alardeando a imperdível liquidação daquela loja de departamentos.
Sentindo-me adoecer, decidi ir para casa. Talvez o farfalhar dos coqueiros e o vaivém das ondas do Mar do Macaco, como de costume, refizessem minha aura, mutilada pela estupidez sonora. Ledo engano! Na calçadinha, cercado por meia dúzia de adolescentes em coreografia silvícola, jazia um carro-totem, cuja potente aparelhagem de som impunha, num raio de dois quilômetros, o máximo da mediocridade musical. Cheque-mate!
Vencido, enrolei a cabeça à moda dos beduínos, imaginando um Beethoven quase surdo tentando compor, enquanto me dava conta que a civilização moderna extraviara um dos seus mais preciosos tesouros: a eloqüência do silêncio.