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Na obra de 1965 que intitula estas notas, Jerzy Kosinski, ao narrar a saga de uma criança vagando sozinha pelo interior da Polônia, exposta às tribulações da Segunda Guerra Mundial, concebeu uma das mais belas páginas da literatura. Transcrevo-a telegraficamente após as aspas, lamentando a exigüidade do espaço. Engendro minha analogia na seqüência.
“Lekh... fixava... os pássaros nas gaiolas... escolhia o... mais forte... pintava-lhe as asas, a cabeça e o peito em tons brilhantes... mandando que eu o apertasse de leve nas mãos... seus gritos atraíam companheiros da mesma espécie... fazia-me um sinal para soltar o prisioneiro que, livre e feliz, lançava-se para o alto, mergulhando na revoada escura de seus irmãos... a mancha colorida voava em meio ao bando, tentando convencê-los de que lhe pertencia... confundidos pela plumagem brilhante, os outros o rodeavam incrédulos e quanto mais o pássaro pintado tentava incorporar-se ao bando, mais o rejeitavam... logo, um depois do outro, começavam a atacá-lo, arrancando-lhes as penas multicolores, até fazer-lhe perder as forças, precipitando-o ao chão... e, geralmente, quando o recolhíamos já o encontrávamos morto.”
Talvez a metáfora que escolhi seja demasiado densa. Todavia, caro leitor, “mutatis mutandis”, é assim que vez por outra percebo o tratamento dispensado à construção civil por seus parceiros, sobretudo no âmbito estatal. Vejo um pássaro vigoroso, antecipadamente pintado pelo preconceito, tentando a inserção num grupo que lhe é concernente por direito. E quanto mais resplandece sua pluma no céu cinza da economia, mais agressões lhe são perpetradas.
Na presente quadra, por exemplo, embargam-lhe órgãos de proteção ambiental, sob a aleivosia de que é “potencialmente poluidor”. Espoliam-no prefeituras, exigindo taxas escorchantes. Assaca-o a Previdência Social com medidas unilaterais protecionistas, agravantes da informalidade. O Ministério do Trabalho o tiraniza, com a pecha da hipossuficiência, desprezando uma verdade majoritária: pequenos empresários são operários por excelência. Ameaçam-no legisladores, querendo emendar a Constituição em desfavor do Brasil. Até os trabalhadores, compartes “mano a mano”, recusam ganhos reais em troca da quimera cavalgada pelos interesses daqueles cujas mãos perderam a calosidade laboral.
Resta aos construtores, portanto, a confiança incondicional do consumidor. Fidúcia esta que - como o fim da guerra para o polonês - dar-lhes-á força para prosseguir com o estandarte da liberdade de empreender neste Brasil multicolor.