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Solidário com nossos irmãos fluminenses, encontro-me também soterrado por aquela gosma fétida que, semana passada, lavou o Morro do Bumba com violência dantesca.
Coisa do mal, por certo, a liga de basculhos e chorume que entupiu bocas de incapazes, sobretudo idosos e crianças, impossibilitando-os de gritar face à triste sina que os enterrou numa podridão enfeitada com passeios, qual imenso sepulcro caiado.
Ora, hecatombes da ordem do divino são inexoráveis, posto que insondáveis, ainda, a despeito dos esforços da ciência, os caprichos naturais que, num átimo, acendem a cratera de um vulcão ou friccionam placas tectônicas. Nos enclaves do temível Cinturão de Fogo do Pacífico, o caso não é perguntar se acontecerá: é quando. Nessas circunstâncias, é orar e vigiar. Nada a fazer ou reclamar.
Todavia, quando ocasionado pela desídia humana, como no desastre em tela, é como se os códigos de um genoma perverso, tipificados pelos tais gestores criminosos, crias dos nossos votos, nos condenassem a todos, coletivamente.
E vejam com que crueldade eles agem: a inviabilidade das moradias naquele substrato podre foi diagnosticada há anos, meticulosamente documentada por toda a sorte de peritos. Ficou patente, pelo menos para mim, que técnicos, secretários, prefeito e governador tinham pleno conhecimento do absurdo. Ou seja: por ação ou omissão, permitiram-no. Não satisfeitos, maquiaram os detritos com uma tosca infra-estrutura, o que prendeu em definitivo as famílias à movediça montanha de gás.
Nós, militantes da construção civil, sabemos que as fundações são a etapa mais importante de qualquer edificação. São elas que absorvem todo o peso e equilibram a superestrutura. Antes de pregar uma tábua que seja, mensuramos cuidadosamente resistências e composições dos solos e, caso seja recomendável, não hesitamos em cavá-los, às vezes dezenas de metros, a fim de que, fincando estacas de concreto ou de aço, encontremos uma ancoragem segura para o que ali se erguerá. E assevero: em paga, fica igualmente profundo nosso sono, conquanto estejamos apenas cumprindo a nossa tarefa.
Contudo, mesmo quite com o dever-de-casa, no que tange à minha ínfima parte nessa grande obra que é a sociedade brasileira, sinto-me verdadeiramente co-responsável pelo inominável drama niteroiense. Sabe por que, amigo leitor? Porque “para que o mal triunfe, é preciso apenas que os homens de bem não façam nada”, como diria Edmund Burke.