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Domingo desses assisti a dois vídeos estarrecedores.
Cena um: capturada pela câmera amadora de alguém em visita a um zoológico tailandês, a seqüência mostra um tratador sendo atacado por um bando de tigres siberianos. Gravemente ferido, é salvo por um colega que, cajado em punho, dispersa o grupo e puxa a massa sanguinolenta para fora do perigo. A manter-se a ferocidade das estocadas, sobretudo depois do baque, penso eu que o corpo magro teria sido destroçado em questão de minutos.
Perplexo com a fúria dos animais, algumas perguntas me ocorreram. O que fez aquele homem afagar e, no encadear, dar as costas a uma família de comedores de carne por excelência? Que tipo de excesso de confiança, ingenuidade talvez, o teria conduzido àquele vacilo? Onde estavam a experiência e o instinto de sobrevivência, atavios que permitiram ao hominídeo vir a ser “sapiens sapiens”?
Como que adivinhando meus pensamentos, respondeu-as o excitado narrador: é que todos os exemplares haviam nascido na própria instituição, em cativeiro. Alguns deles, inclusive, refugados pela tigresa-mãe, teriam sobrevivido mercê de uma mamadeira improvisada pelo carinhoso funcionário. Era, portanto, uma convivência longa e sadia, a dele com os felinos. Paternal, a bem dizer. Carícias e brincadeiras compunham a alegre rotina do curral dos tigrezinhos.
Cena dois: o presidente do Brasil, desfeito em sorrisos, surge em animado convescote com o supremo mandatário do Irã, referendando as “legítimas” eleições de lá, bem como seu programa nuclear para “fins pacíficos”. Nosso onipotente dirigente, estrumado pelo jornalista, nomeia Chavez como o maior líder venezuelano nos últimos cem anos, Zelaya, um injustiçado, Castro, um democrata, e Morales, um “enfant terrible” – porém acha que de fato é ele, Lula, quem dita as cartas “urbi et orbi”. E o chanceler brasileiro, mimando o chefe, cita como exemplo o episódio da ocupação das refinarias da Petrobrás, concluindo que foi o exercício de um direito líquido e certo do vizinho. No fecho, como num balé, ambos viram-se, com o adeusinho diplomático de praxe.
Não sei por qual razão, estabeleci uma clara correlação entre as duas matérias. De tal modo que, por cautela, fiquei querendo já saber quem nos salvará quando começarem as ofensivas. E por favor, considerado leitor, nada de surpresas: afinal, atacar pelas costas – até mesmo pais amorosos (e pretensiosos) - é da natureza tanto das feras como dos ditadores.