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Em 162 AC, o dramaturgo Publio Terêncio, numa peça chamada “O carrasco de si mesmo”, escreveu: “Eu sou homem e nada do que é humano me é estranho”.
Balbuciada mentalmente como uma reza (com o perdão de quem não aprecia o platonismo cristão), dita frase passou a funcionar para mim como uma âncora: unhando o fundo do mar lodoso da coexistência e estabilizando a nau da confiança na espécie. Dito de outro modo: ajudando-me senão a perdoar, ao menos a compreender certas insanidades cotidianas.
Ocorre que, a cada instante, tal conceito é mais e mais solapado. Tanto que, por esses dias, não adiantou repetir o mantra alentador: nada me segurou as lágrimas quando tomei conhecimento, por intermédio de uma revista semanal, da freqüência com que torturas são perpetradas, impiedosa, repetida e criativamente, por sádicos de diversas tipologias e sexos, em crianças de colo, por assim dizer, no seio da própria família (?).
Vendo fotos dos pervertidos ao lado dos rostinhos aterrorizados, imaginei o que eu teria em comum com aqueles Belzebus, vez que, segundo o romano, somos do mesmo tronco. E cheguei à conclusão de que não pode pertencer à humanidade alguém que, como num dos exemplos, vai friamente a um juizado de menores, credencia-se à adoção de uma criança abandonada - portanto já ferida de morte ao nascer - e leva-a não para um lar, mas para sangrar numa câmara de tortura.
E a bizarrice maior é que essa degenerada estudou, diplomou-se, prestou um concurso público para exercer um cargo no âmbito da Justiça (incrível!), trabalhou durante anos num gabinete, até aposentar-se sob as bênçãos da lei, serenamente. Digo serenamente, mas retrato-me: só Deus sabe o que se passa no íntimo de almas sebosas como aquela. Quem, a não ser Ele, ousaria adentrar nos sonhos e desejos de semelhante anomalia?
Sei que a história registra inúmeros casos de crueldade ilimitada. Gengis Khan; Vlad, o Empalador; Ivan, o Terrível; a dupla Isabel de Castela e Torquemada; Maria I ou “Bloody Mary”; e os tiranos Hitler e Stalin são só umas poucas estrelas dessa constelação macabra. E eu não estou aqui para absolvê-los. Feita a ressalva, todavia, por extraordinariamente bárbaros que tenham sido, a meu ver, cada um desses doentes agiu sob determinada motivação; torpe, abjeta, covarde, mas alguma. Ora a sobrevivência, ora o racismo, ora a superstição, ora a intolerância – porém sentimentos inegavelmente humanos, todos eles, conquanto injustificáveis.
Mas, prezado leitor - e aqui, confuso, peço seu auxílio –, você identifica um vestígio de humanidade nas atitudes desses espancadores de garotinhas e garotinhos? Algo que provoque uma mínima empatia com vistas à compreensão e, em seguida, ao perdão? Ou estaria Terêncio, como bom satírico, alumiando os cascos e os chifres do monstro que habita entre nós?