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Nos idos de setenta, constava nos currículos universitários, como obrigatória, uma disciplina chamada Estudo dos Problemas Brasileiros; injunção esta, por sinal, criticada intramuros, pois a cadeira abonava subliminarmente a ditadura militar então vigente, dando-a como panacéia para todas as doenças nacionais.
Não pretendo, aqui, discutir a quadra obscura da exceção: os males persistem e o dano foi imensurável. Todavia, permitam-me uma confidência: tirante o vezo autoritário, que impunha passagens do leitmotiv do regime - um nacionalismo exacerbado -, as aulas da detestada eram-me particularmente prazenteiras.
Lembro-me de que não havia medo - sentimento inacessível para jovens imortais - muito menos simpatia pelos métodos dos dominadores, dos quais se sabia pouco ou nada. Antes, o desejo de desfrutar do periférico: uma pasta das histórias nacional e mundial, temperada com duas pitadas de economia e uma medida de sociologia. Tal sabor haveria de, por toda a vida, regalar meu estreito paladar. Debalde as necessárias incursões nos cálculos e nas físicas, voltei sempre para lá.
Faço esse prólogo para recuperar, por oportuno, uma dessas preleções, cujo tema era a Organização das Nações Unidas. Naquelas circunstâncias, o conceito de um colegiado de quase duzentos países, conectados entre si num pós-guerra traumático, a fim de (notem bem) por princípio “fomentar as relações cordiais entre os países e manter o mundo em paz e segurança”, pareceu-me o supra-sumo da democracia. Com o auxílio luxuoso de um projetor, o mestre nos introduziu numa assembléia geral, no imponente auditório de Nova Iorque, sob cuja abóbada reverberavam inflamados discursos em socorro da liberdade e da ordem mundial, inspirados pelas efígies carismáticas de Roosevelt, pai da idéia, e Truman. De quebra, havia um slide de Haia, onde pontificou, glorioso, nosso Rui.
Babei... E na hora, cogitei de mim para comigo: “É diplomata que vou ser”. E (este o lado bom da história) instalei-me de mala e cuia na biblioteca para devorar as biografias de Alexandre de Gusmão, Duarte Ribeiro e José Maria da Silva Paranhos.
Porém, não sei se por deliberada omissão da ementa ou por ingenuidade minha, acabei não retendo, naquela ocasião, uma informação que decerto me pouparia da empresa, já que macularia, como de fato o fez, a sucessora da Liga das Nações. É que lá todos os participantes têm o direito de opinar, contestar, espernear, inclusive votar. Contudo, apenas cinco têm o de vetar: Estados Unidos da América, China, Rússia, França e Grã-Bretanha, membros permanentes do Conselho de Segurança, de longe o mais importante. Ou seja: se estes não estiverem de acordo, nada acontece.
Que democracia é essa?