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Discurso proferido pelo Presidente do Sinduscon/JP no lançamento do Livro Técnico

por Irenaldo Quintans



Senhoras e senhores,


Por esses dias, em face do momento atual por que passa o Brasil, e também por diletantismo, devo confessar, tenho viajado num mundo de teorias, que buscam decifrar o enigma da esfinge econômica: como e porque nações se desenvolvem e deixam de se desenvolver? Gostaria de usar este breve tempo, hoje, para compartilhar algumas reflexões com esta seleta platéia.


Por volta de 1700, andei vadeando as charnecas da Escócia com Adam Smith, para entender que o mercado precisa de liberdade. Liberdade para empreender. A “mão invisível” manejada com habilidade pelo egoísmo lúcido do mercantilismo é capaz de prover a todos. “Laissez faire, laissez passer”, deixa fazer, deixa estar, que o mercado é senhor da razão. Desregulamentemos o Estado, o deixemos meramente com três atribuições: defender a soberania, promover a segurança e a justiça entre os cidadãos e executar as obras sociais que à iniciativa privada não interessam por qualquer razão que seja. Aí está a felicidade.


No mesmo século, enfrentei o fog londrino para encontrar David Ricardo e compreender, afinal, qual o sentido da proposição das vantagens comparativas: cada país deve se dedicar à produção daquilo em que é especialista. Depois permuta o excedente com parceiros. Nada mais lógico. Dessa forma, tudo seria feito numa base mutuamente vantajosa para todos.


Mais adiante, lá vou eu escutar, um tanto horrorizado, o reverendo Thomas Malthus discorrer sobre a inexorabilidade do descasamento entre o crescimento da população e as possibilidades dos meios de produção. Uma, crescente de forma exponencial, incontrolável e desordenada. Outra, de forma aritmética. Lenta e gradual, a depender de “n” fatores. Sugestões: políticas rígidas de controle de natalidade, sobretudo entre as camadas mais pobres da população.


Descendo da Bretanha, encontrei o francês Jean Baptiste-Say, que, em pleno Iluminismo, disse que “a oferta cria sua própria demanda” ou que “a oferta de dado produto tende a criar demanda por este e por produtos diversos”. Portanto, nada nos resta a fazer senão ofertar. E muito, com fartura.


Na Europa dos reis e dos czares, dou de cara com o barbudo revolucionário Karl Marx, que me disse de pronto: “São as relações de produção que fundamentam as relações sociais e é o trabalho o centro de tudo”, embora ele próprio não fosse muito chegado a tal, dizem à boca miúda. Entre “a religião é criada pela fabulação dos homens” e “o propósito do capitalismo é se apropriar da mais-valia incorporada às mercadorias”, tome materialismo dialético, tome revolução armada e tome Estado planificando tudo.


Dando um corte na história, voltei a Cambridge e deparei-me com um John Maynard Keynes aristocrata, dispondo-se, com sua inovadora teoria, a fazer uma síntese entre duas premissas gigantes: o Estado deve ou não deve interferir na economia? Deve sim, sempre que os ciclos assim o solicitarem: se há perspectiva de recessão, o Estado deve, de uma banda, incrementar suas despesas, e de outra aliviar as políticas fiscal e monetária. Nosso estimado presidente Lula e certo ministro Mantega, por sinal, eram aguardados para conversar com ele a qualquer momento. Devem ter batido altos papos, devido às atitudes que tomaram para nos livrar da crise internacional de 2008.


Pois bem, senhoras e senhores. Viagens e brincadeiras à parte, a conclusão a que cheguei é que não importa qual teoria a gente abrace, já que bem se vê que uma é construída sobre a outra, é no homem que deve ser focada a nossa primordial atenção. Tanto que nosso país, ao começar a investir nas famílias, seja por intermédio da infra-estrutura física, seja por intermédio da infra-estrutura social, desfruta hoje de uma posição extremamente privilegiada em relação ao mundo: somos a mais segura e promissora expectativa de investimento, apontada como tal por nove em cada dez agências de análise de risco.


Quiçá - e esta é a minha tese - vivemos a fatalidade da bonança que advém depois das tempestades, como se dizia lá no Congo. Algo mais simples: passamos três décadas sem progresso, crescendo mal a mal, a taxas inferiores ao crescimento vegetativo da população, agora é hora de crescer de verdade. E não importa os que digam as vivandeiras do caos: isso acontecerá, porque o foco passou a ser nas pessoas. Tudo tem sido pensado para que elas usufruam de um futuro melhor. É assim que tem que ser. Sem demagogia, sem lero-lero. É bom para todos, inclusive para a economia. Pelo sim e pelo não, é prudente conhecer os ilustres cientistas aqui citados e muitos e muitos outros, para não cometermos velhos equívocos nem cairmos na tentação de reinventar a roda. Por isso comecei por eles.


Focando melhor nossa lente, percebemos que situação análoga ao Brasil perante o mundo, vive o Nordeste em relação ao Brasil. A região cresce a taxas muito maiores do que o país, em todos os campos. Nada mais justo para um rincão que amargou anos a fio o abandono das políticas públicas, exceto um inútil assistencialismo durante as secas. O Nordeste é hoje campeão nacional em vários consumos, inclusive no de cimento, dado incontestável para aferir a velocidade da expansão econômica.


E nossa Paraíba, hein? Tudo me leva a crer que estamos virando o jogo, graças a um governo experiente e proativo, que valoriza os empreededores, apoiando os aqui de dentro e atraindo os lá de fora. Parabéns ao governador José Maranhão, carinhosamente apelidado pelo segmento de “governador mestre de obras”, dada a sua paixão pelas obras públicas estruturantes, e aos seus auxiliares, entre os quais o SINDUSCON tem a honra de ter contribuído com dois do melhor quilate, Wagner Breckenfeld, um alemão de São João do Rio do Peixe, na Companhia Docas, e Gilson Frade, um técnico da maior competência na valiosa SUPLAN. Esperemos que Sua Excelência continue a acalentar esta meta, que é a meta de todo paraibano: restaurar a auto-estima e a posição da pequenina e valente Paraíba ante o país. Queremos ser a quarta economia do Nordeste.


E o papel da construção civil nesse contexto senhores e senhoras, é, sem embargo, o mais relevante possível. É por intermédio do nosso segmento - perdoem a imodéstia - que são cimentadas as bases para a expansão não apenas da economia, mas e sobretudo, para a consolidação da dignidade humana. Sem a construção não há parques fabris, não há transporte, não há armazenamento, não há lazer, não há escolas, não há habitações, não há abastecimento de água, não há saneamento, não há sequer onde possa ser celebrada a religiosidade do nosso povo! Devido a isso, nos sentimos legitimados para cobrar, às autoridades constituídas deste país e deste estado, respeito e, mais do que de qualquer coisa, interlocução. Por exemplo, foi graças a uma interlocução positiva do Governo Federal com a CBIC que saiu a lei 10.931, o PAC e o revolucionário programa Minha Casa Minha Vida, que recuperou a política habitacional de estado no Brasil, elementos decisivos para que chegássemos à atual quadra. Lamentavelmente, caros amigos e amigas, nem todas as esferas de governo têm semelhante disposição de ânimo e nos vêem meramente como pagadores de impostos e poluidores do meio ambiente. Precisamos corrigir essa injustiça.


E os senhores a as senhoras têm o direito de me perguntar o que essas divagações têm a ver com a noite de hoje. Explico: já que o homem é o centro de tudo e a construção tem feito tanto em favor dele com pedra e cal, esta entidade, ao comemorar seus trinta anos de existência, resolveu dar uma contribuição diferente. Desta feita, optamos por eternizar, através das letras impressas em papel, uma coletânea de excelentes artigos sobre os processos da construção civil desde a produção até à utilização, a ser distribuída gratuitamente aos diversos níveis da cadeia produtiva da atividade e a quem mais se interessar, compilada mercê do empenho da professora Nelma Araújo, de cujo nome eu me valho neste instante para cumprimentar a todos que participaram da sua elaboração. É isso. De maneira que só me resta agradecer destacadamente aos mestres e doutores que assinaram os artigos, pelo desprendimento e competência, ao magnífico reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, professor João Batista, sem cuja parceria teria sido impossível a realização desta empresa, aos excelentes serviços prestados pela Gráfica Santa Marta e pela equipe responsável pela criação, diagramação e revisão, coordenada pela empresa Feedback Comunicações.


Estamos convictos, portanto, de que esta modesta contribuição representa uma pá de argamassa na construção da maior e mais importante infra-estrutura possível, repito: a infra-estrutura da alma, condição sine qua non, aliás, tanto para que o homem promova a riqueza e a pujança econômica como para que desfrute, com parcimônia e equilíbrio, dos bens materiais que possam ser colocados à sua disposição por essa riqueza, não importando, repito, qual a teoria econômica em voga.


Por fim, em meu nome, de meus estimados diretores, que me hipotecaram seu apoio incondicional neste projeto, e dos funcionários desta Casa, agradeço penhoradamente a presença, a paciência e a oportunidade que os senhores e as senhoras dão ao SINDUSCON João Pessoa de oferecer este presente à sociedade paraibana, citando o escritor italiano Edmondo de Amicis:


“Coragem, pequeno soldado... Os teus livros são as tuas armas, o campo de batalha é a terra inteira e a vitória é a civilização humana.”


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