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Modelos de comportamento

por Irenaldo Quintans



Meu pai escutava futebol no avarandado lá de casa, sentado numa espreguiçadeira, um obsoleto rádio Philco, seu xodó, sobre as pernas. E eu, a raspa do tacho, peruando, disputando com o rival o precioso colo paterno.


A barulhenta caixa parecia ser, com efeito, a janela por intermédio da qual “Seu” Quintans saciava sua sede de mundo. Gabava-se, inclusive, de que a relíquia tinha uma potência tal que, querendo, sintonizava a BBC de Londres, sua preferida, como se a difusora de Sua Majestade estivesse ali mesmo, no quintal.


E já que futebol para ele era essencialmente inglês, desandava a contestar o “speaker”, a zangar-se com o “goalkeeper” e a criticar “centre foward” e “right back”, que não se entendiam. Em suma, aquilo, sim, era “football”. Porém, sobretudo, aquilo, sim, era um rádio: “Tem as marcas do uso, mas não há nada como ele hoje em dia”, jactava-se.


Lembra-me de certa feita em que ele cochilou e deitou no chão o rebento, partindo o cabo de baquelita bicolor. Na impossibilidade de encontrá-lo no mercado, papai, engenhoso como sói, não contou conversa: ajustou um pedaço de pau, ocou-o para a passagem da fiação e pintou-o de preto e branco, nas cores originais. Achei um desastre, aquele simulacro. Mas ele não deu a mínima. Tanto que o rádio acabou-se e o cabo não. E eu adquiri, graças a esses belos dias, um gosto especial pela informação.


Deixando de lado as reminiscências saídas do coração mole deste escriba, o fato é que atualmente vemos os jogos em televisões de altíssimo desempenho, com displays de cristal líquido e tudo o mais que a tecnologia alcançou. Detalhes como as gotas de suor, a deformação da bola em contato com o crânio do cabeceador e a careta que acompanha o esforço de perseguição surgem na tela numa lentidão que chega a exasperar. Contudo, junto com as imagens, também em “bullet time”, chegam-nos aos olhos e ouvidos os irreproduzíveis impropérios que nossos heróis modernos assacam no calor da partida, tanto dentro como fora de campo.


Esclareço: não é meu objetivo admoestar ninguém. Sou avesso ao puritanismo. Em face de determinados quadros, não há melhor válvula de escape para a frustração senão um palavrão em alto e bom som. Todavia, têm me causado constrangimento os de baixo calão que, nesta Copa, são reproduzidos minuciosamente, quadro a quadro, esgar a esgar, sílaba a sílaba. Foi-se o tempo em que o ruído da estática os encobria!


Portanto, considerando que atletas e treinadores bem sucedidos são modelos de comportamento para a nossa juventude, penso que deveriam guardar o devido decoro nas suas expressões - pelo menos nos microfones e diante das câmeras.


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