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Incompetência ou má-fé?

por Irenaldo Quintans



É cansativo constatar, mas uma das principais desgraceiras da gestão pública brasileira, especialmente da municipal, é essa incompetência desavergonhada, cuja ocorrência, infelizmente, é muito mais comum do que eu e você, leitor, pagadores de impostos, desejaríamos.


Só há outra deformidade de caráter, a meu ver, que sobrepuja a incúria, tanto em freqüência como em destrutividade. É a intenção deliberada de prejudicar, também chamada de má-fé, muito presente no cotidiano da gente. Esta é terrível: por onde passa deixa um rastro de desolação, qual medonho cavaleiro do apocalipse.


Nenhuma empresa humana, aliás, tem possibilidade de prosperar pautada no intento preconcebido de fraudar. Daí surgirem os conluios, as tramóias, os ardis, ambientes preferidos dos homens públicos de pouca luz, os quais, protegendo-se uns aos outros na escuridão dos escaninhos, impossibilitam o processo de apuração das culpas e deixam o contribuinte com o sabor amaríssimo da impotência.


Mas - e este é o objeto da nossa conversa -, e quando se amontoam, numa tulha, ambas as mazelas? Penso que não há nada pior.


Quer ver? Experimente, num dia chuvoso de julho, dar um passeio por Intermares, bairro pertencente a um município que ostenta a terceira arrecadação estadual, não pela maternidade milenar das tartarugas-de-pente, cuja beleza, aliás, agrilhoa-me há quinze anos, mas pela avenida paralela à beira-mar. Vai saltar sobre o automóvel, como um zombeteiro deus Pã, uma combinação de desídia e falcatrua, verdadeira esbórnia com o recurso público.


Veja bem: com o nome de pavimentação, sacudiu-se sobre o leito nu da rua - um terreno de baixíssima absorção -, sem uma valeta sequer para a drenagem das águas pluviais, em cima de uma porção mal compactada de areia, uma camada de espessura insignificante de asfalto amalgamado sabe-se lá com o que. Um retetéu de agregados vários, afinal, com a consistência fluida dos mingaus de maizena de minha mãe.


Não precisa ser nenhum barão Haussmann, célebre (e honesto) prefeito de Paris no século dezenove, para perceber que aquela obra não foi feita para atender à população. Uma criança compreenderia, no projeto, que tal engenho jamais sobreviveria a duas pancadinhas da chuva do caju. Que dirá aos temporais intermarinos, que, açoitados pelos ventos oceânicos, ameaçam tirar fora as janelas? A rigor, deu-se o contrário: o faz-de-conta impermeabilizou a avenida, que, sem opção de escoamento, passou a verter para as casas. A lei é: buraco na rua e água na garagem. E o dinheiro seguramente foi gasto!


Em sua opinião, leitor, isso é incompetência, má-fé ou as duas coisas juntas?


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