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É assunto para uma dissertação, não para breves notas, mas penso que a expansão imobiliária vertiginosa experimentada pelo Brasil nos últimos anos deve-se a três fatores. O leitor deverá, por certo, listar outros tantos. De qualquer modo, encare estes como uma forquilha que acastela, no fogo, o caldeirão fervente da atividade.
Como primeiro - e mais importante – cito a estabilidade obtida pela economia brasileira a partir de 1994. Para ser justo, devo dizer que ela foi perseguida desde muito antes. Já em 1986, com a inflação galopando a dois mil por cento ao ano, tentava-se tal desiderato através de prestidigitação. Foram cinco planos de sofrimento. Somente no derradeiro, que introduziu a URV, foi apagada da memória viciada do mercado a fissura da inflação inercial. Neutralizada esta, reviveram o longo prazo, o papel-moeda e o hábito de planejar. Percorremos uma extensa trilha até agora; contudo, aquela foi a luz de Prometeu.
O segundo, reflexo do primeiro somado à política de assistencialismo oficial, foi a extraordinária elevação do poder de compra dos brasileiros de rendas mais baixas. Estima-se que, de uns tempos para cá, trinta milhões de pessoas ingressaram no mercado, comprando.
O último, conseqüência de tudo que o precedeu, foi o retorno dos bancos ao financiamento imobiliário. Desconheço sistema eficaz de moradia no mundo que tenha prescindido do aparelho bancário. Não é normal construtor desempenhar o papel de banqueiro. Com marcos regulatórios, segurança jurídica e juros civilizados, todas as instituições estão com a carteira habitacional aberta - e com entusiasmo. O volume subiu de meio para três por cento do PIB em dez anos. Cenário que nem Pangloss, o otimista de Voltaire, preveria.
No entanto, algo me preocupa. Para emprestar, os bancos necessitam de “fundings” - tesouros de captação. No Brasil, há alguns. Porém, o mais relevante e democrático deles é a caderneta de poupança, instrumento centenário por cujo intermédio as famílias amealham as sobras de caixa. Semana dessas, a empresa-símbolo da poupança nacional anunciou que este instrumento está à beira da exaustão, dadas a baixa remuneração e a preferência por comprar. Ou seja, a poupança está perdendo do consumismo. Efeito colateral? Eleva-se o endividamento das famílias. Efeito principal? Serão reduzidos ou encarecidos os financiamentos imobiliários.
Não seria o caso de, em vez de estímulos às compras, notadamente de supérfluos, veicular-se uma campanha nacional a favor do hábito cidadão de poupar? Tenho a impressão de que faria muito bem à nação. Afinal, seja qual for o prêmio, poupança é prudência, e prudência, como diz o brocardo, “é não desejar o que não se pode ter”.