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Ex ante facto

por Irenaldo Quintans



Perdoem-me a insistência, mas todos os ganhos decorrentes da esperada expansão do PIB brasileiro poderão ser anulados se, paripassu, acompanhá-la equivalente aumento no índice de preços, como indicam as pesquisas. Cimento, “commodity” primária, responsável por até 15% do custo de um prédio, subiu 27% somente nos últimos dois meses, segundo o Sindicato da Construção do Rio de Janeiro. E há sinais de que um outro agregado básico, o vergalhão, terá seus preços majorados em breve. Nesta esteira, no mínimo disparam os elevadores, cujas cabines usam aço inoxidável. Simulo este encadeamento para se ter uma idéia de como o imã funciona: um reajuste atrai o outro. É assim que a cascata inflacionária toma corpo.

Antes de argumentar, entretanto, devo esclarecer que abomino os oráculos do caos, aqueles que têm como profissão antever desgraças econômicas. Fazer previsões sombrias – em vez de boas - coloca o profeta numa situação deveras confortável: se o cenário catastrófico realizar-se, bingo! Por sobre os destroços, o iluminado cobra os aplausos. Se não, foi graças à sua divina intervenção que se evitou o pior. De novo aplausos. Moleza, não é? E não desdigo, com o alerta de hoje, a minha convicção de sempre: o crescimento é bom e, sobretudo, inexorável, mantidas as condições de temperatura e pressão. Minha dúvida é o que virá atrelado a ele; entulho inflacionário ou justiça social? Vamos ao busílis da questão.

É sabido que já há um forte aumento no consumo. Presentes natalinos, alimentos, automóveis, linha branca, eletro-eletrônicos, imóveis, tudo parece ser objeto da sede de anteontem do consumidor. Movido pelo anseio represado, ele não está protelando: está comprando agora. Tanto que há notícias de escassez em alguns itens. E, também, ao lado do febril compra-compra do momento, aumenta a propensão das famílias a consumir mais no futuro, numa espiral automática. Junto a isto (e por causa disto), mede-se uma leve, porém sistemática, elevação na renda do trabalhador, notadamente daquele que sai da linha da pobreza. Com o adjutório do assistencialismo federal, ele ingressa no mundo mágico do mercado, passando a ser mais um voraz usuário dos serviços e produtos que só o dinheiro pode comprar.

Até este ponto, tudo certo. Ótimo para a sociedade. Afinal de contas, é sobre o consumismo desenfreado que se acha firmemente apoiada a maior economia do mundo: a dos Estados Unidos da América. De vinte em vinte anos, convenhamos, a casa tem caído por lá, literalmente. Mas no cômputo geral, a estratégia prospera. Gera uma certa “sustentabilidade consumista”, seja lá o que isso for. De todo modo – e este é o elemento relevante -, há produção para fazer face ao apetite de compras. O cenário, estabilizado de há muito, permitiu que o parque fabril se preparasse para enfrentar o ruge-ruge do mercado. Tanto as indústrias de bens de capital como as de bens de consumo investem pesadamente na modernização dos processos e na ampliação da capacidade produtiva. Ademais, o poder público comparece com seu quinhão na medida em que disponibiliza mais dólares para infra-estrutura. Transportes, geração de energia e tratamento de água são exemplos do que não pode faltar. Esses fatores, somados ao crédito barato e farto e à estabilidade institucional, fazem a grandeza, não somente da americana, mas de muitas economias mundiais.

E aí revelo minha suspeita: será que o industrial brasileiro está se aprontando para atender à multidão, cujos passos ecoam desde logo em todos os segmentos? E, por outro lado, será que os governos estão atentos à necessidade de urgente contrapartida nas áreas que lhe são afetas? Estou falando, amigo leitor, em ações “ex ante facto”, como se diria em economês. Ou seja, antes do fato ocorrido, com tempestividade. Não depois. Depois é realmente o caos.
Pelo sim e pelo não, eu – como a andorinha no incêndio - estou postergando minhas compras. Já disse em casa que, neste fim-de-ano, só não dispenso o peru, o pernil, o panetone e a champanha. O restante fica para o ano que vem: “ex post facto”.

PUBLICADO NO JORNAL O NORTE, EDIÇÃO DE DOMINGO, 04/11/2007


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