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Mentiras úteis

por Irenaldo Quintans



Perdoe-me a insistência, caríssimo leitor, mas ainda não me conformei com o pacote de maldades perpetrado neste início de ano pelo Governo em represália (não consigo pensar noutra denominação) à derrota da CPMF. Entrei 2008 engasgado com a pusilanimidade do presidente, que faltou com a verdade não ao partido A ou ao partido B, que eventualmente lhe fazem oposição, mas a toda a sociedade brasileira. E, também, com a desfaçatez da declaração, à guisa de justificativa, que prestou o ministro Guido Mantega à imprensa, sem titubear e sem baixar um centímetro o queixo majestático. Disse ele que “a promessa do presidente era não mexer nos impostos em 2007, mas nós já estamos em 2008, portanto não há o que se falar em descumprimento”. Sapateou sobre a nossa inteligência ou não?

O senador Artur Virgílio – sem lhe questionar os motivos - demonstrou rematado bom senso político e, sobretudo, econômico ao dizer, como disse esta semana, que “o presidente pode errar, mas não pode mentir”. Foi de uma precisão cirúrgica. Nas nações civilizadas do globo, a palavra do mandatário, mormente se for um que goze do prestígio e da popularidade do nosso, é lida como verdade absoluta. Tanto pela população, como pelos mercados. Aqui dentro, intramuros, fica somente essa sensação de engodo, de manipulação, à qual já estamos acostumados. Para os últimos, entretanto, sensíveis e cuidadosos que são, nos observando com invulgar interesse, a mentira oficial equivale a uma quebra de contrato, um desacordo inaceitável. E o reflexo é outro, rápido e implacável. São os preciosos dólares e euros que, estando cá entre nós, vão embora; e não tendo chegado ainda, jamais virão. Tanto no erro como na inverdade, a aplicação sai. Sendo que, diante da segunda, não há perspectiva de retorno.

Dizem os números que o Brasil foi o país que mais atraiu capital estrangeiro no ano passado, uma cifra próxima a quarenta bilhões de dólares líquidos (o dobro da arrecadação da CPMF). Ficamos atrás apenas da Holanda, que, apesar da improvável idéia de estar abaixo do nível do mar, há séculos é, literalmente, um dos portos mais seguros para o desembarque do dinheiro do mundo. Que o comprove o movimento das docas de Roterdam. Outros analistas afirmam que estamos a um passo do famosíssimo grau de investimento, comenda conferida pela comunidade financeira internacional que simboliza a segurança e a transparência que determinado mercado oferece às transações. Ora, se sem o dito beneplácito estamos perdendo apenas para os Países Baixos, calcule, amigo investidor, depois desse mimo? Bateremos todas as metas, é o que se espera. Ou melhor, se esperava. Agora, com “mentira útil” do presidente, tudo ficou incerto no horizonte.

Ademais, contrariando toda a lógica desenvolvimentista, o Governo vai cortar uma parte – que pode aumentar, aumentar... - das despesas onde? Precisamente no Programa de Aceleração do Crescimento, conforme anunciou o ministro Paulo Bernardo sobre o rastilho de pólvora deixada pelo colega da Fazenda. Felizmente, este auxiliar do presidente parece ter o queixo menos real e apreciar a verdade. Logo no PAC, a esperança de meio trilhão de reais? Porque não, como escrevi semana passada, nos supérfluos? Rosas para ornamentar os coquetéis do Palácio, aluguel de carros para autoridades, passagens aéreas e diárias sem-fim e tudo aquilo mais que faz revirar o estômago ulcerado do trabalhador brasileiro.

Termino com uma lúcida colocação do poeta português Teixeira de Pascoaes sobre o assunto em tela: “Atualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e, portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras”.

PUBLICADO NO JORNAL O NORTE, CADERNO DO CONSTRUTOR, EDIÇÃO DE DOMINGO, 13/01/2008


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