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A lógica da violência
Não me repreendam porque somente agora tive coragem de escrever algo sobre o vilipêndio cometido à dona daquele sorriso angelical, a criança Isabella Nardoni. É que aquilo mexeu muito conosco - o Brasil inteiro. Procuro, no fundo de mim, o que dizer; e não encontro nada. Leio crônicas, reportagens, artigos. Debalde, estou mais e mais macambúzio. Faz-se um escuro danado na minh’alma cada vez que se trombeteia uma novidade. Velhas e horrendas novidades, diria o poeta Cazuza. Acho que, aqui dentro, sinto algo muito similar ao que sentiu Dante ao aproximar-se da inscrição infernal: “lasciate ogni speranza, voi ch'intrate”. Ou “abandonem toda a esperança, vocês que aqui adentram”. Relevem a pretensão, é que hoje não raciocino com clareza.
Tudo bem, houve o terrível caso de João Hélio, cuja dolorosa “via crucis” deixou emocionados mesmo psicopatas irrecuperáveis. Tenho a fortuna de não conviver com estes - não que eu saiba, pelo menos. Mas um amigo, que presta assistência caritativa a manicômios judiciários lutando pela re-inserção social de autores de chacinas indizíveis, relatou-me que viu lágrimas nos olhos de um deles quando aquela cena arrepiante, quadro a quadro reproduzida pelos desenhistas policiais, foi divulgada.
Porém, o martírio da menina dos Nardoni (será que posso chamá-la assim?), conquanto recheado da mesma irracional brutalidade, produziu muito mais perplexidade do que o que vitimou o outro inocente. Sim, porque ninguém menos do que pai, avô e tia, sangue sobre sangue, juntos na perversidade, perpetraram, ao que tudo indica, a atrocidade. Juntos sim, porque, em minha opinião, quem encobre uma insanidade daquelas, com tamanho ardor e desfaçatez, deve arder no mármore do inferno lado a lado com quem a praticou. João Hélio foi sacado da vida por pessoas cujas negras sombras já não valiam um vintém furado. Espíritos demoníacos, que nos fazem lembrar do profeta Aldous Huxley quando indaga: “e se a Terra for o Tártaro de outro planeta?” Não que isso, de per si, falseie a gravidade do fato. O torne menor, mais compreensível, humano. De modo algum; continua estapafúrdio. Todavia, facilita o entendimento. Foi levado a efeito por pessoas que nada tinham para dar, porque provavelmente nada receberam. Estava cunhado na face trevosa deles: a turbação espiritual por detrás da máscara. Já a linda Isabella, em plena agonia, clamou pela proteção do seu algoz: “papai... papai!” Pediu água a quem lhe esganava. Quero crer – de todo o coração - que seus olhinhos tenham se recusado a ver papai naquele monstro. Desfocaram propositadamente a boca esgazeada, os olhos negros do homem que quer sorrir quando se está falando em morte: a morte da sua única filha. A madastra? Vá lá que seja. Uma peste. Mas papai? Papai que deveria proteger, agasalhar, enfrentar o inimigo? O herói papai? Por quê? Por quê?
O que percebo, ao tentar escrever algumas linhas para vocês, é que estou à busca de luz. Talvez pelo excesso de publicidade, de detalhes mórbidos. Trajetórias, bonecos, camisas sujas, telas rasgadas... Não culpo as reportagens, todavia, pelo meu estado de ânimo. O fato é que, embora lide com lógica o dia inteiro na minha profissão, não tenho conseguido, por mais que tente, encontrar a que permeia essa loucura! Não cabe na minha massa cinzenta! Uma massa cinzenta de pai. De gente.
E assim, por derradeiro, desejando parar definitivamente o escrito, puxo da estante, pelo dorso, um velho exemplar de “Santuário”, de Faulkner. Em estado lastimável, com várias páginas descolando pela umidade e roído de traças, o livro combina perfeitamente com a minha nebulosidade. E Horace – personagem que anseia pela mesmíssima justiça que quer o promotor Cembranelli –, selecionado quase ao acaso, vaticina, como a brincar com meu desespero: “Morremos um pouco quando encontramos lógica na violência.” Permaneço perplexo; é melhor.