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O custo do financiamento

por Irenaldo Quintans


Não é de hoje que defendo das vantagens do crédito à produção. De há muito – e meus parceiros de sindicato e empresa são testemunhas - advogo a tese de que o futuro do mercado imobiliário, pelo menos no que diz respeito à administração financeira, passa necessariamente pelo dinheiro dos bancos. A proporção tende a crescer, até chegar, talvez em dez anos, a cem por cento das nossas transações, exceto por um determinado montante captado na Bolsa de Valores à disposição apenas de um número reduzidíssimo de empresas.
E não preciso da arte de um Nostradamus para arriscar tal profecia. É que sempre achei - como muitos analistas também acham - que a função de agente financeiro não é do incorporador, tampouco do construtor. Há como que um desvio de metier. Por algumas décadas no passado, financiamos, sim. E foi bom; aprendemos um pouco mais. Porém, o fizemos como condição imperativa para a sobrevivência, jamais porque tenha sido essa nossa meta. Era fazer ou deixar de vender. Celebramos com o cliente um acordo baseado na confiança recíproca e pagamos para ver, apostando a própria pele. Foi uma experiência vitoriosa. Construiu tudo o que aí está. Além disso, permitiu que estabelecêssemos com o comprador um laço de compromisso raramente quebrado por quaisquer das partes: a inadimplência é baixíssima na modalidade de autofinanciamento. E o índice de insucessos é ínfimo em relação aos êxitos.
Permitam-me relembrar que até coisa de dois três anos atrás a gente (empresário, tomador de empréstimo) entrava no banco e era olhado pelo gerente assim, meio de soslaio, para usar expressão muito utilizada nos livrinhos de faroeste, quando o mocinho dá de cara com o bandido. E algo como “o que é que esse cara vai querer desta vez?” parecia rebrilhar. Não era ele o culpado, claro. Não sou de ressentimentos. Até porque foi na cartilha dos bancos que aprendi o bê-á-bá. È que o sistema tinha melhores caminhos para se remunerar. Sem risco, sem dor de cabeça, sem esforços operacionais. A bem da verdade, a mamata eram os títulos públicos com prêmios estratosféricos, cuja emissão se fazia essencial para a rolagem de uma dívida que se julgava impagável.
Mas, voltando ao que lhes quero dizer, desde que o esperto escocês Jonh Law fundou o sistema bancário atual, ali pelo século dezessete, é dessa engenharia financeira a prerrogativa de captar recursos de onde abundam para emprestá-los a quem tem cadastro e avalista. Em condições normais, digo melhor, numa economia normalizada, com inflação e câmbio dentro da expectativa, relação dívida x PIB controlada, consumo e renda em expansão, é este ato: o de captar, emprestar e se apropriar do “spread”, que mantém saudáveis os bancos ao redor do mundo. Notem bem: eu escrevi “saudáveis”. Não “ricos à tripa forra”.
Ora, acabo de ler na conceituada Folha de São Paulo que os bancos brasileiros aceleraram fundo no quesito rentabilidade durante o governo atual, em comparação com a era FHC. Em 2002 era de dez por cento sobre o patrimônio líquido. Em 2003 decolou para mais de quinze. De lá para cá, só fez subir. E, hoje, beira os vinte e dois. Mais que dobrou, gente. É muita coisa. Querem ver? Perguntem a um supermercadista, a um revendedor de combustíveis ou a um verdureiro sobre a rentabilidade desses negócios. Daí o sistema inchar a não mais poder, agora mais do que nos áureos tempos, já que estão no melhor dos mundos: juros catastróficos numa economia estabilizada.
Diante disso, pergunto e afirmo. Pergunto: quem esperava que um governo que se auto-intitula de esquerda fosse esse maná para o capital e, em conseqüência, essa praga para a produção? E afirmo: não obstante tudo o que tem sido falado sobre queda nas taxas de juros, continuamos pagando os maiores do planeta, descontada a inflação.
Portanto, muita calma nessa hora, meu caro construtor: faça as contas de quanto o empréstimo vai onerar o produto antes de assinar o contrato. Se brincar, o preço de venda considerando o ônus do financiamento poderá ficar desalinhado com o mercado. A continuar assim, precisarei rever minhas previsões.



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