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Não sei se já aconteceu com você, caro leitor, mas há determinados interlocutores que direcionam a conversa de modo tal, que nosso raciocínio parece manipulado no sentido de uma conclusão previamente conhecida. Sobretudo questionamentos aparentemente simples, feitos por pessoas que nada têm a ver com aquele setor; mas cuja capacidade de análise desconcerta qualquer um que se julga “expert”. Veja em que fria me meti.
Na fila do banco, encontrei, em férias, um conhecido que há muito deixou nossa capital em direção ao Centro-Oeste, para exercer atividades relacionadas com área de saúde pública. Depois dos cumprimentos de praxe, indagou-me se eu permanecia ligado à construção civil. Disse que sim, e a conversa prosseguiu em divagações sobre como João Pessoa cresceu. “Bonitos edifícios, confortáveis apartamentos...Um trabalho admirável vocês fizeram por aqui” elogiou ele, inflando meu ego sensível. Daí por diante, discorri sobre o cenário otimista que se avizinha, com perspectivas de crescimento da ordem de seis por cento ao ano, novas empresas sendo abertas, postos de trabalho abertos e tudo o mais que faz do nosso segmento o motor do desenvolvimento. Terminei o relato ofegante de animação.
“Porém, quando eu saí daqui vocês tinham um problema seriíssimo de preço baixo, que praticamente inviabilizava a atividade, não era?” Retrucou. E foi em frente: “Tanto que alguns colegas seus queixavam-se de que ‘trocavam seis por meia dúzia’, a bem dizer. Concluíam o edifício e não sobrava nada para empreender novamente; isto quando conseguiam terminar. Nunca acreditei muito nisso, mas uns poucos imprevidentes até ficaram pelo caminho, menos por má-fé e mais por impossibilidade mesmo; vendiam barato demais, depois se tornava difícil cumprir os compromissos.” “Foi isso mesmo que aconteceu” concordei eu, um tanto surpreso com a compreensão dele sobre tal fenômeno do segmento imobiliário. “E parece que, se a memória não me falha, o problema do preço baixo era provocado pela concorrência predatória derivada do excesso de oferta que inundou o mercado. Também, pudera, todo mundo queria montar uma empresa construtora àquela época. Foi uma verdadeira corrida do ouro, você lembra de Fulano, Beltrano e Cicrano?” Nesta altura, que poderia eu dizer? Claro que lembrava, vivi isso na pele. “Recordo-me, sim. Está correto. Tenho a impressão que você estava no ramo e não na faculdade de medicina”, rebati eu. “Entretanto” tentei argumentar, sem saber ao certo aonde nos levaria aquele papo, “as circunstâncias mudaram de lá para cá. Hoje, o mercado está enxuto, reduziu-se o número de construtoras devido à expansão de outros setores, há crédito imobiliário dos bancos, os preços dos insumos foram estabilizados, enfim, a coisa está funcionando muito bem, por isso espero esse clima positivo do qual lhe falei.” Ele esboçou um “há, bom, é que estou meio ‘por fora’” que me fez arrepiar. “Mas, escute: é verdade o que li por esses dias nos jornais? Que há muitas construtoras de outras regiões do país e até do exterior se instalando em João Pessoa?” “Verdade verdadeira” balbuciei eu. “E é certo que elas desejam produzir, para vender aqui mesmo, algo em torno de dois mil apartamentos em curto prazo?” “Certíssimo” me ouvi dizendo. Ele, então, se superou: “Você que pesquisa isso, me esclareça se a renda do paraibano aumentou nos últimos anos.” Respondi: “Não de forma significativa, já que quase metade da população economicamente ativa da Paraíba depende dos salários do setor público; e estes, como se sabe, não cresceram senão na medida de uma reposição canhestra e irregular”.
E aí, meus amigos, ele deu o golpe de misericórdia, como se fora Sócrates caminhando na velha Atenas e repetindo “só sei que nada sei” enquanto ensinava tudo sobre tudo aos seus discípulos. Empulhou-me de vez. “Bom, me corrija se eu estiver errado, afinal minha área é outra: se não houve aumento na renda das pessoas, quem vai comprar tanto apartamento? E mais: se a oferta tende a aumentar e a demanda tende a não acompanhar, os preços vão baixar até o nível do passado?”
Salvou-me da continuação desse diálogo a agilidade do caixa do banco, que neste momento chamou minha ficha. Entretanto, ainda escutei, enquanto me afastava, o seu derradeiro comentário, dirigido a um vizinho: “Ele sempre foi um otimista...”