Receba novidades sobre Construção Civil
O cobertor mal ajambrado deixava à mostra uma cabeleira escura e desgrenhada. Desconjuntado sob o tecido, o volume não tinha proporção. Assemelhava-se a um fardo, um pacote. Se a mancha grená no promontório do peito, que a todo tempo aumentava, não se destacasse no branco puxado a um bege sujo, parecia de fato um ensacado, largado a esmo, enfeixado com cordas negras.
O asfalto, cruel, rebrilhava como lantejoulas num leito de príncipe. Fustigado pelos raios dourados desse entardecer no inverno de faz-de-conta de cá, exibia uma alegria indiscreta. Ao fundo, recortando o horizonte rubro, aumentados pela ilusão ótica do lusco-fusco, sobressaiam os contornos das copas da mata do Amém. Como grandes deusas, davam a entender que, de algum modo, compreendiam e reverenciavam aquilo que ocorrera a seus pés. Um sacrifício humano, decerto. Alguma homenagem - pensavam com o pensar dos vegetais -, como nas imolações dos pré-colombianos.
À direita, um pneu, com pára-lama e lanterna. À esquerda, estilhaços de vidro, pedaços de baquelita marrom e a placa. Dez metros adiante, o precário animal mecânico contorcido sobre si mesmo, como se fruísse de violenta dor estomacal. Quiçá a dor de não ter se equilibrado, de não ter sido estável o suficiente. De ter, como o Pégaso mitológico, derrubado aquele audacioso e descuidado Belerofonte.
Em derredor, um grupo silencioso, entre respeitoso e indiferente, assistia, arriscando-se sob a fina garoa, mais do que ao quadro em si, ao trabalho dos patrulheiros. Estes, acenando energicamente para os que passavam, tentavam, em vão, apressar um bocadinho o fluxo já engarrafado. Lembraram-me tenores numa ópera a céu aberto; com um fim terrível, no entanto.
Parei mais adiante, imantado pela tragédia. Não costumo fazer isso: tenho a sensação de que é desrespeitoso para com o protagonista ali deitado, sem chance de se compor, sem álibi, sem salvaguarda. Exceto em casos que requeiram meu tributo pessoal, em geral passo adiante. Contrito, condoído, mas passo. Mesmo porque é uma triste rotina na nossa capital: a cada cruzamento há alguém desamparado no chão. Mas, como quer que seja, parei. E parei justo quando se iniciou o fim de tudo: o rabecão cinzento estacionado de ré, rente à cena, portas escancaradas, e os calejados funcionários aprontando o indigitado - com raro desvelo, até - para o transporte. Sustive-me hipnotizado, aquilatando, de mim para comigo, como é breve o átimo no qual se sai do mundo dos vivos e se cruza o rio Estige, na barca de Caronte, ao encontro de outras almas, como criam os gregos. Como é incerta nossa jornada por aqui...
Eis que, num movimento mais brusco daquele que o apanhava por defronte, pende da maca um braço, pálido, juvenil, quase sem pelos. Brandindo os músculos ainda não atingidos pela rigidez, balouçou um segundo e imobilizou-se a noventa graus, como que impedido de movimentar-se. Levitando, quase vivo, denunciou, infiel, aquilo que fora provavelmente os grandes amores do corpo ao qual, por anos, oferecera sua destreza.
No antebraço, abaixo do cotovelo, lia-se, em pequena e delicada tatuagem, um nome feminino. Mais acima, de um lado a outro do bíceps, a inscrição meio gótica, na cor preta, elucidava a “causa mortis”: um simulacro de capacete, encimado pela expressão “paixão por moto”.
Revoltei-me. Não com aquelas paixões, mais do que legítimas, com as quais me identifiquei de pronto. Ora, amor é amor. E ele amara. Como eu amo e como tu, estimado leitor, seguramente amas. Revoltei-me porque não sei até quando vamos assistir, impotentes, aos nossos apaixonados jovens morrerem e mutilarem-se nas quedas de motos, quer por falta de uma legislação que os proteja, quer por falta de vias adequadas, quer pela falta de consciência de todos os que usam veículos automotores. É essa incerteza que gera a frustração e a dor incomensurável do amor não correspondido, do amor-perda, do amor-tragédia.